Salar de Uyuni - Bolívia

Fora as dicas que dei não sei mais o que fazer em La Paz, portanto, está na hora de ir para o Salar de Uyuni. Prepare-se para uma viagem de 12 horas. Esteja avisado que dessas 12, seis são em uma estrada mesmo e outras seis em uma estrada que parece mais um campo minado. Se você estiver dormindo, vai acordar assustado com tamanho treme-treme. Você pode até pensar que o negócio vai parar logo, que vocês estão passando por um trecho em manutenção. Pura ilusão. A viagem vai continuar desse jeito durante seis horas. Se sua mala não cair do bagageiro, no final da viagem ela vai parar lá na frente do ônibus. Se você não tomar um boa noite cinderela, prepare-se! Tem horas que você acha que os pneus do ônibus vão furar tamanha a pancada que eles dão nas pedras. Se você tiver dois metros, como eu, os assentos não são os mais confortáveis também. Torça para chegar lá logo, vale a pena passar por tudo isso.

Se você fechou o pacote em La Paz, provavelmente, terá alguém aguardando você. Siga a plaquinha que a pessoa irá te levar para a agência de turismo. O que acontece é que a agência que você fechou lá em La Paz é UMA e a que você está sobre os cuidados agora é OUTRA. Não há muito o que fazer, o esquema deve funcionar assim há muito tempo. Apenas fique sabendo disso de antemão. Tinhamos fechado com uma tal de Adventure em La Paz, mas quando chegamos no Uyuni fomos alocados para a Lipez Expediciones. Deixamos nossas malas e nossos nomes na agência e fomos tomar café da manhã e comprar óculos escuros (muito necessário no Salar). Não sei o porquê de tanta pizzaria na cidade de Uyuni, tudo gira em torno de uma praça principal e as opções de cafés da manhã giram no estilo do modelo americano com torradas, café, geléia, omelete e leite. Mesmo com alguns fios de cabelo, a comida me caiu bem.

Ao voltar para a agência, o dono nos perguntou se falávamos inglês. Dissemos que sim. Então ele nos fez uma proposta onde traduziríamos as coisas para uns turistas e ele pagaria nossa entrada no parque principal do passei que custa 150 bolivianos. Buscamos entender um pouco melhor e descobrimos como funciona o esquema por lá. Como todos ônibus de La Paz chegam pela manhã, eles vão juntando o grupo de pessoas em uma planilha e formam grupos de 6 pessoas por jeep. Até aí tudo bem, poderíamos traduzir as coisas em inglês para três suecas, ou três alemãs, ou três inglesas, ou seja lá qual fosse a nacionalidade de três mulheres. A verdade é que havia os seguintes grupos por nacionalidade: 5 coreanos, 3 brasileiros, 3 portugueses, 1 checo, um casal sueco, um casal brasileiro e um casal boliviano. A sacanagem é que o malandro queria colocar um de nós com o grupo de cinco coreanos, separados dos outros amigos. Sem preconceito, mas aguentar 3 dias com um grupo de cinco coreanos que não falam em espanhol e o mínimo em inglês seria no mínimo foda. Para falar a verdade, seria uma merda total. Na hora sacamos a safadeza e acabamos com os três portugueses no jeep, sobrou para o checo ficar com os coreanos.

Antes de começar o passeio conhecemos os portugueses que estavam discutindo se iam ou não fazer a trip. E aí eu me imagino o que faz três portugueses irem até o Uyuni para decidir se fazem o passeio ou não. Segundo eles, eles estavam fora do timing e precisariam voltar no mesmo dia. Para isso, além de já ter pago US$99 cada um, sem chance de tê-los de volta, tiveram que desembolsar mais 900 bolivianos para que o motorista os levassem embora no mesmo dia. Se não fossem portugueses não teria ficado tão espantado com a esperteza do roteiro deles (eles já haviam chegado de taxi no Uyuni vindo da Argentina).

Enfim, o tour começou com nós três (brasileiros) no carro mais os três portugueses. Tudo começa na cidade e aos poucos a cidade vira um povoado até virar um monte de NADA. Essa é a graça do deserto, não tem rua, não tem poste, não tem NADA. No máximo você vai ver a linha vertical que separa a terra do céu, areia, nuvens, outros jeeps cruzando o deserto e algumas montanhas muito distantes. O motorista/guia te leva por um caminho que ele deve saber por campo magnético, bússola ou sei lá o quê até o cemitério de trens, nossa primeira parada. Como um sonho surreal o lugar possui vários trens sucateados que transpostavam estanho nas décadas de 70 e 80. Alguns vandalizados com pixações, outros com dizeres poéticos como "Así es la vida" ou irônicos como "necesitáse de mecanico con experiencia". A linha de trem é um bom lugar para tirar aquele tipo de foto deitado como se estivesse tentando se suicidar. Os trens sucateados também rendem algumas imagens boas se você souber aproveitar diferentes planos. Essa parte dura cerca de 45 minutos e você vai começar a ter idéia do que é o Deserto do Sal.

Depois de mais um horinha você vai chegar em um povoado antes do Salar. Não me lembro do nome do lugar. Além de artesanato e, obviamente, sal para vender, o lugar tem um museusinho com umas esculturas de sal interessantes como "a maior lhama do mundo" e um estátua estranha de mulher onde eles utilizavam as tetinhas dela para queimar velas. Estranho. Você pode entrar em uma casinha mais ao canto para entender o processo de "fabricação" do sal com um garoto que no final pede uma propina simbólica pela explicação e te leva para mostrar cada etapa de produção. Se você estivesse fora do contexto, com certeza, confundiria o lugar com um centro de processamento de cocaína com uma senhora colocando o produto em sacolinhas de plástico e adolescentes empilhando tudo em caixotes dentro de uma casa escura e mal acabada. Se você tiver muita sorte, vai ver umas carnes ao sol em cima de um caminhão. Provavelmente, esse é um lugar sem energia elétrica e essa deve ser uma forma deles conservarem a comida. Sem mais o que fazer, volte ao jeep e avance para a próxima etapa.

A terceira etapa do tour é a Isla del Pescado que é o lugar onde você vai almoçar. Os almoços são preparados antes de você sair da cidade de Uyuni e varia conforme a operadora. Nós comemos carnes, batata, quinua (um tipo de arroz) e legumes. O famoso suco de laranja super químico Tampico estava na nossa mesa, outras mesas contavam com Coca-Cola além de água. Se der sorte seu motorista terá levado um guarda-sol e você não vai precisar comer assando no Sol, como nós fizemos. Depois do almoço você vai ter a oportunidade de conhecer a Isla del Pescado. Para andar entre as pedras e usar o banheiro você vai ter que pagar 15 Bolivianos. Repare que lá tem um restaurante com o mesmo nome e marca do Mongo´s lá de La Paz. Não se iluda com a placa "Cold Beer", é uma miragem. Compre seu ingresso e bora dar um rolê nas pedras! A "ilha" é repleta de cactus e é uma das paisagens mais fantásticas da viagem. Se você estiver com um chapéu e óculos escuros coloque em algum cacto e tire uma foto como ele se fosse uma pessoa. Para chegar na bandeira da Bolívia onde há uma visão incrível da ilha você vai ter que dar uma escaladinha na pedra. Depois de Waynapicchu qualquer subida ou escalada fica fácil. Depois de ficar de saco cheio de rachar no Sol e ficar vendo cactus, bora conhecer o primeiro hotel de sal do Salar. Você vai ficar desapontado. Hoje ele é um museu e parece apenas uma casinha no meio do deserto. Na frente tem uma pracinha com umas bandeiras, rende boas fotos. Sem mais o que fazer, você irá para o povoado o qual passará a primeira noite e diversas surpresas desagradáveis te esperam.

Ainda são 3h da tarde e você já esá exausto. Não vê a hora de tomar aquele banho esperto e descansar em um hotel de sal em uma cama confortável e aconchegante. Primeiro, mude seu conceito sobre o que é um Hotel. Você vai chegar em um povoado com algumas casinhas e lhamas envoltos por uma paisagem incrível. Atá aí tudo bem, você provavelmente já sabia que não ficaria em algum hotel de luxo no meio do deserto. O problema é que você chega as casinhas e descobre que o motorista está indo perguntar SE tem vaga para vocês lá. Ou seja, se você acha que o esquema ali é por reserva está completamente enganado. Depois de passarmos pela primeira opção do motorista, fomos para a segunda e nada. A gente já estava pensando que íamos dormir no carro no meio do deserto, o problema é que o motorista ainda tinha levar a porra dos três portugueses que tinham que voltar para o Uyuni ainda nesse dia. Depois de duas tentativas fracassadas, nosso guia voltou para a primeira opção e falou alguma coisa que mudou a primeira negativa e logo íamos descobrir a trama toda. Ao voltar para nos comunicar que ficaríamos ali mesmo, fomos ver nosso quarto. O negócio era um muquifão com chão de pedra batida, cama de sal, paredes descascadas e um teto com um material que parecia uma palha com fita adesiva. Muito estranho. Bom, como diz o ditado "tá no inferno, abraça o capeta". Pegamos nossas coisas, demos adeus para os portugueses e perguntamos se o motorista voltaria ainda hoje. Ele disse que sim. Meus amigos não são muito disso, mas depois de deixarmos nossas coisas no quarto fui tomar um banho e dar um cagão. O banheiro era bizarro com portas que não fechavam direito, paredes completamente mal construídas, tudo sem reboco, duas privadas (homens e mulheres) e uma ducha (com água quente!). Fui entrar no box dos homens e tinha um troço boiando lá. Pensei "puta que o pariu" e entrei no das mulheres na miúda. Fiz o que tinha que fazer e entrei no meu banho. Ao sair fui encontrar meus amigos e estávamos achando tudo muito estranho porque estávamos sozinhos naquele lugar. Tinha uns outros dois hotéis ao lado com uns quatro jeeps cada um e só nós estávamos naquele lugar. Muito estranho 2. Como um sinal dos deuses chega mais um jeep no local com 7 mulheres! Gente do céu! Quando o motorista perguntou se tinha habitación falamos que sim na hora e ele foi conferir com a mulher lá dentro. Por espanto de todos ele volta dizendo que não tinha mais vagas! Mas como assim? O corredor tinha uns quatro quartos para uma, duas e dois de três pessoas (um era nosso) e não havia ninguém ali! Muito estranho 3. Foi quando a moça falou que estavam servindo chá no refeitório. Foi quando finalmente descobrimos que estávamos em uma casinha que é extensão do hotel de sal e ficam os empregados, motoristas e as pessoas que moram no lugar. Resumindo: para encaixar a gente o cara pediu para ficarmos no quarto dos motoristas que para ser bem sincero é uma senzalinha. Como não somos de dar xilique e não estávamos nem aí e nem reclamamos muito, pelo menos tínhamos lugar para ficar.

Cada mesa do refeitório é para um grupo de pessoas de um dos jeeps. Como os portugueses foram embora, só tínhamos nós três na nossa mesa, excluídos das demais pessoas. Tomamos nosso café, tentamos interações em vão com um grupo de cinco argentinas e como tudo por lá é de sal (chão, parede, cama, etc...) eu lábio desidrata de uma maneira que ele fica parecendo um morango. Se você rir, seu lábio abre e sangra é bizarro. Não há manteiga de cacau que faça milagre. Prepare-se porque se sua turma for engraçada você vai ficar rindo que nem uma gueixa. Sem nada melhor para passar na boca, meu amigo passou Hipoglós. Segundo ele, melhorou, mas eu tenho minhas dúvidas. Voltando a minha história, como estávamos excluídos dos outros grupos, fomos para foram caçar lenha para fazer uma fogueira. Tínhamos vinho e pretendíamos atiçar a curiosidade das argentinas fazendo uma coisa de macho. Homem faz fogo. Íamos fazer uma fogueira. Chamamos o tiozinho que morava lá no "hotel" e ele descolou uma pá para gente. Pá? É, uma pá! A vagetação de lá é rala e você precisa encontrar uns matinhos secos para fazer fogo. Ficamos até a noite "lenhando" mato seco e montamos nossa fogueira. Fazia frio e estávamos com frio. Foi quando descobrimos que quem fica com a comida para a janta são nossos motoristas e tanto o nosso motorista quanto o de outro grupo que estava na mesma operadora ficamos aflitos em ver que todo mundo estava comendo e apenas nós que não. No final descobrimos que nossa comida estava lá e eles preparam sopa e frango com batatas para nós. Fazia frio. mas bem menos do que na Isla del Sol. Depois de comer, fomos acender nossa fogueira para impressionar as garotas. No entanto, o engraçado é que o mato seco pegava fogo muito rápido e se nossa fogueira rendeu mais que 20 minutos foi muito. Bebemos vinhos mesmo assim e as argentinas já estavam de pijaminhas dormindo há muito tempo. Ficamos fazendo light painting com nossas câmeras fotográficas e mais tarde fomos andar no Deserto com nossas lanternas. Fomos dormir bêbados e raxando o bico.

No outro dia, acordamos ás 6h. Pegamos a estrada novamente e no segundo dia você tem que pagar para entrar em um parque ecológico dentro do Deserto de Sal. Custa 150 bolivianos. Lá dentro estão todas as Lagunas (Verde, Hedionda, Los Flamencos). Essas lagoas são um show à parte. Imagine, você está no meio do deserto e, de repente, você se depara com uma lagoa gigante cheia de flamingos! É, flamingos! A lagoa está repleta deles. Você vai se cansar de tirar tanta foto de flamingos. Vai lembrar de "Enigma" e da famosa história com a "sopa de flamingo". Enfim, a partir de agora você basicamente vai ver esse tipo de coisa. Lindas e fascinantes lagoas com flamingos. Aproveite. Devo admitir que passamos por alguns vulcões, mas é impossível lembrar o nome deles. Todos possuem nomes impronunciáveis, até chegarmos na seunda hospedagem dentro do Deserto. Dessa vez, não ficamos na senzalinha dos motoristas. O quarto era muito melhor que o da primeira noite e tinha até uma vendinha próxima com chocolate, vinho, bolachas e pequenos itens para os viajantes. Tudo parecia ótimo até então, quando descobrimos que lá não tinha chuveiro. Para homens, isso não chega a ser um problema, mas ouvi muita mulher reclamando no ombro do namorado por lá. Como disse da última vez, tá no inferno... abraça o capeta e ficamos papeando com a turminha que conhecemos até a hora da janta. E veja só que momento único... um vinho boliviano acompanhava a refeição! ós já tinhamos tomado duas garrafas de vinho desde então e parecia que tínhamos passado o batom Nívea nº 46, segundo uma mina brasileira que conhecemos por lá.

No último dia do Deserto você vai acordar às 4h30 e às 5h30 já estará pelo Deserto depois do café da manhã. O primeiro destino são os geysers, tanto artificais (devido a exploração de petróleo) quanto naturais. Agora, você vai se impressionar mesmo com as termas que vem logo a seguir. São 7h da manhã e a temperatura está próxima dos 10 graus quando você chega em uma piscininha com águas próximas de 35 graus e todos gringos, inclusive lindas meninas, estão dentro da piscininha. Você vai ver que tem muito brasileiro lá, fale para pegar os sabonetes e comece a cantar com os amgios "Uba, uba, uba, hey! Uba, uba, uba, hey!". Isso vai render boas risadas. Aproveite pelo menos uma hora, você não vai mais sentir a água tocando seu corpo assim pelo menos até voltar a La Paz. Antes de terminar esse dia, você passa por mais vulcões e a 5km da fronteira com o Chile. Muitos seguem até lá, nós precisávamos voltar para a Bolívia, então tudo depende do seu roteiro de viagem. Para finalizar esse tour fantástico, você passará por mais alguns vilarejos (vai almoçar em um) e segue de volta para a cidade do Uyuni onde você precisará aguardar a saída do busão até La Paz novamente.

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